Aconteceu em Petrópolis: A classe operária no início do século XX (parte 1)

por Norton Ribeiro

A partir da segunda metade do século XIX, em meio à crise da continuidade em explorar a força de trabalho escrava, o governo imperial incentiva a entrada de estrangeiros como forma de tentar solucionar o problema da falta de mão de obra nas lavouras, especialmente de café. O governo da província de São Paulo passa a subvencionar a imigração, assim como os fazendeiros que custeiam a viagem e recebem os imigrantes na condição de colonos e força de trabalho livre, dos quais a imensa maioria de italianos. São esses imigrantes, que já em fins do XIX e início do século XX, irão compor a classe operária nas grandes cidades, juntamente com trabalhadores de outras nacionalidades e os brasileiros (incluindo brancos pobres e negros libertos ou descendentes de escravos). Trata-se de uma classe bastante heterogênea num Brasil agro-exportador que vê a expansão das atividades industriais.

Assim, com relação ao tema da imigração, o historiador Claudio Batalha em artigo intitulado Formação da Classe operária e projetos de identidade coletiva, nos mostra que durante muito tempo vigorou a tese da imigração e a militância do movimento operário. Estudos recentes mostram que a maioria desses imigrantes provinha do campo e, muitas vezes, não tinham experiências políticas ou sindicais. Desse modo, a origem rural, a perspectiva de ascensão social e as diferenças culturais foram fatores que dificultaram a organização operária. A própria opção pela imigração para fugir da miséria demonstra a inexistência de uma crença de mudança pela ação política em seus países. Segundo Batalha, militantes da época confirmam que as diferenças culturais poderiam dificultar as organizações operárias e, em alguns casos, havia organizações de trabalhadores com base na nacionalidade, o que até afastava outros grupos. Outra perspectiva de análise mostra que muitos queriam “fazer a América”, ou seja, guardar algum dinheiro para um dia poder voltar aos seus países de origem, mas acabaram construindo suas vidas em várias partes do Brasil ao se depararem com outras dificuldades.

Nesse mesmo contexto, em 1873, o imperador autorizava o funcionamento da Cia. Petropolitana de Tecidos, indústria que atraiu grandes levas de trabalhadores imigrantes italianos àquele distrito, muitos oriundos de São Paulo, ocupando cerca de 1.100 operários, quase todos de nacionalidade italiana. Sendo assim, estes passaram a fazer parte do operariado da cidade e que anos depois estiveram presentes nas lutas dos trabalhadores da indústria têxtil.

De acordo com Ismênia Martins, o número de italianos é particularmente expressivo no caso de Petrópolis, consagrada como cidade de veraneio desde tempos do Império, onde os italianos se distinguiriam não apenas no setor de serviços, mas nas manufaturas, pequenas oficinas, metalurgias, carpintarias e também como operários nas grandes fábricas têxteis ali instaladas. A mão-de-obra das indústrias era basicamente local, mas deve-se considerar o enorme contingente da Cia Petropolitana com quase todos os operários imigrantes italianos. Em Petrópolis, os negros tiveram uma participação pequena, mas deve-se considerar o fato dos dados e das fotos da época estarem encobrindo um caráter racista sobre a incapacidade desse grupo, já que a escravidão era ainda era um fato concreto e as relações sociais do negro com o restante da população por ela seriam determinadas.

A respeito da composição da classe operária nas primeiras décadas da industrialização no sudeste, há uma imagem de uma classe fabril branca e masculina, sendo que uma classe branca, em maioria, ocorreu nos estados do sul e São Paulo, mas desconsidera-se o restante do país. Mesmo com a grande presença de imigrantes de origem europeia fazendo com que na Primeira República predominem os homens na indústria, a mão de obra feminina foi significativa e às vezes majoritária no ramo têxtil. Em Petrópolis, as mulheres eram presença constante no meio operário, assim como muitas crianças, por ser mão-de-obra mais barata e pela cidade abrigar dezenas de indústrias têxteis, o que as atraía. Entretanto, o peso do trabalho feminino esteve sub-representado nas organizações operárias, onde a presença masculina era dominante, apesar das mulheres também se envolverem nas greves e manifestações. Contudo, nunca chegaram a posições de comando nos sindicatos que surgiriam mais tarde.

Portanto, Petrópolis despontava como uma região de desenvolvimento industrial, assim como Juiz de Fora e a própria capital fluminense, demonstrando que a classe operária não se fez com determinados grupos, mas com interesses coletivos que a levaria a se produzir enquanto uma classe de trabalhadores.

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