Aconteceu em Petrópolis: O Outro Lado do Grito – Mitos sobre a Independência

por Norton Ribeiro

Já é de algum tempo, principalmente neste período histórico de Brasil republicano, que comemoramos o 7 de setembro. O feriado nacional tem por característica os desfiles de escolas com suas bandas marciais e a exibição das forças armadas pelas ruas das cidades brasileiras, sendo o espetáculo maior ainda nas capitais do país. A data do rompimento político com Portugal obteve um grande peso histórico após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, já que, aos olhos do novo regime, era preciso se desvencilhar do período colonial, sinônimo de atraso e estagnação, representado pelo Velho Regime monárquico, apesar do Brasil já viver como país soberano politicamente. Era preciso criar novos símbolos e mitos para sustentar a nova fase do “Ordem e Progresso”, e assim foi com o 7 de setembro, com Tiradentes e a Inconfidência – um evento que nem chegou a acontecer e nem tem nada a ver com uma possível Independência do Brasil – além de outras datas. No período do governo militar pós 1964, as comemorações adquiriram maior intensidade agora com a exibição das forças armadas representantes da soberania e do orgulho pátrio.

A Independência se deu pelo desfecho da luta entre a classe dominante colonial contra as tentativas de recolonização da metrópole. Após o grito, no entanto, D. Pedro I sofreu resistência interna principalmente na Bahia e província do Grão-Pará que não queriam a separação. Embora estivesse surgindo uma nova nação, o sentimento de nacionalismo não existia e nem mesmo uma integração nacional. O Brasil tinha sua economia voltada principalmente para o exterior e menos para as províncias. Mesmo assim, era necessária a organização de um novo governo com a criação de ministérios, elaborar uma constituição e D. Pedro estaria garantido no posto de Imperador graças à defesa dos interesses dos grupos dominantes no processo de independência.

Com o passar do tempo, os acontecimentos históricos vão sendo recheados de glamour, privilegiando determinados fatos em detrimento de outros, ou esquecidos por não representarem relevância naquele momento histórico. O que quero dizer é que o tempo presente, as instituições de poder e os historiadores escolhem seus fatos a serem historicizados. Por isso, uma data especial como a Independência do Brasil, está envolta a vários mitos cristalizados com o tempo e a repetição, cabendo também ao historiador a entendê-los e romper tais conceitos eternizados por tradições inventadas. Buscaremos, então, entender alguns mitos sobre a Independência do Brasil.

1° – acredita-se que o Príncipe Regente D. João VI e a Família Real portuguesa tenham fugido às pressas das tropas de Napoleão, partindo para o Brasil onde chegaram em 1808. Embora tenha sido uma fuga, a idéia de transferência da corte portuguesa já era antiga na metrópole, apesar de não ter se transformado num projeto real antes de 1807. Historiadores acreditam que a idéia de “fuga” é uma visão muito pobre do acontecimento, pois o Brasil ocupava uma posição relevante para os domínios portugueses naquela época levando ao plano de criação de um Império luso-português. Além do mais, D. João sempre foi visto como um covarde bonachão, visão mais recentemente difundida pelo filme Carlota Joaquina, apesar de Napoleão ter escrito em seus diários: “Foi o único monarca europeu que me enganou”.

2° – Aprendemos que o sete de setembro sempre foi feriado, uma data importante no calendário nacional. Bem, o sete de setembro só se tornou efetivamente uma data nacional na segunda metade do século XIX, seguindo a tendência de consolidação de um Estado Nacional e de símbolos que pudessem fazer com que os brasileiros se reconhecessem enquanto comunidade. Segundo a prof. Lúcia Pereira das Neves, o único jornal na época que noticiou o “Grito do Ipiranga” foi O Espelho, que circulou entre 1821 e 1823. Podemos verificar em periódicos da época digitalizados pela Biblioteca Nacional que não havia menção à data. No entanto, havia outras comemorações consideradas mais importantes como o 12 de outubro (aclamação de D. Pedro como imperador e também seu aniversário); e o 1° de dezembro (coroação do Imperador).

3° – o quadro “Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo, é a imagem clássica do ato da Independência. Essa é uma das grandes mentiras da História do Brasil, o quadro é somente uma idealização daquele momento. Pedro Américo finalizou a obra em 1888 e nunca soube realmente como foi a cena. Na verdade ele realçou a colina para dar destaque ao imperador e ao riacho Ipiranga; Incorporou, anacronicamente, a Guarda do Imperador, regimento criado tempos depois da Independência; todos estão montados em cavalos de raça Puro Sangue, mas A subida da serra entre Santos e São Paulo exigia o uso de mulas. O pintor colocou-os em cavalos de raça usados pela nobreza européia; Percebemos que um caipira que olha a cena, objetivando demonstrar que as decisões políticas cabiam às elites. A Casa do Grito foi incluída por Pedro Américo que só foi construída muito tempo depois da Independência, em 1860; Há uma composição geométrica da tela na qual todos os elementos do quadro convergem para um eixo central, ou seja, Pedro I. É a única figura estática do grupo, o que obriga o observador a dirigir-se para ele.

Assim, o mesmo ocorre com muitos outros acontecimentos históricos. Devemos sim comemorar o dia da Independência, mas também refletirmos que país queremos para nós e para outras gerações.

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4 Comentários

  1. Pablo Fernandes da Silva diz

    A independência do Brasil, tão festejada e comemorada em todo sete de setembro, na verdade não teve nenhum significado social. A impressão que se tem é de que a história dos livros didáticos é meramente mítica. Quanto a nós, brasileiros patriotas, precisamos sempre questionar os acontecimentos da nossa história. Afinal, por trás de um bom enredo histórico, há sempre uma realidade opressora. é isso q eu penso sobre esse assunto 🙂

  2. Marcelo cardoso diz

    Achei o texto bem interessante pois aborda vários tópicos sobre a independência que aconteceram que nao todos mas a maioria das pessoas poderiam saber pra se dar ao luxo do porque e como comemoram o dia de 7 de Setembro. Ótimo texto traz informações boas sobre essas datas.

  3. Jonathan Demarchi diz

    Os livros contorcem a realidade da nossa história, sempre leiam questionando se o fato vem a ser verdadeiro.

  4. Renata Oliveira Barbosa diz

    “Onde mora a liberdade,ali está a minha pátria”.. Um país de grande liberdade de expressão,esse texto evidencialmente nos mostra isso,é preciso ter orgulho da pátria,e das grandes figuras que lutaram e deram a vida por suas idéias defendidas.
    É sempre bom termos mais conhecimentos sobre nossa história,o texto é excelente traz muitas informações e de forma bem detalhada e muito bem explicada,desmentindo muitas “histórias” que são implantadas nas cabeças das pessoas desde cedo.

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