[Coluna] Fatos e testemunhas

por Eduardo Stotz, presidente da CMV

São palavras no chão

e memória nos autos.

 

Toda história é remorso.

Carlos Drummond de Andrade

“Disse mais o declarante que no dia trinta e um de março esteve na sede do Sindicato Geral, e que no dia primeiro de Abril depois da paralisação do Serviço na Fábrica o depoente dirigiu-se para sua residência não saindo mais de casa, com medo que houvesse algo de anormal. Disse mais que em absoluta jamais fará parte de qualquer reunião do Sindicato nem jamais fará parte de qualquer cousa alguma. E MAIS NÃO DISSE, nem lhe foi perguntado, lido e achado conforme do que dou fé, vai assinado pela autoridade e pelo depoente. Eu, Escrivão datilografei e subscrevo.”

“O preso, agora na condição de declarante, deve ter antevisto na assinatura aposta no documento a sua carta de alforria, uma semana depois de penar, junto com os companheiros de luta, muita angústia, desconforto, falta de higiene, fome e frio.

“As palavras finais não eram propriamente as dele; o delegado fizera um ‘resumo’: sim, ameaçado de nova prisão se voltasse a participar do sindicato, dissera que não ia mais participar. Mais não disse: lembrava de muitas outras coisas que guardara para si, pois se falasse, mais achariam ele envolvido e de um simples companheiro de luta, subiria o degrau para a liderança e aí…

“Lembrou ativistas e dirigentes juntos lá no sindicato para encaminhar a greve geral: a  Dona Isabel e a São Pedro de Alcântara eram as fábricas mais importantes a serem paradas. Por isso os piquetes iam contar com a diretoria e as bases, mais o pessoal do Alto da Serra.

“E a verdadeira palavra que poderia de fato resumir tudo, do ponto de vista dele e dos demais presos que lotavam a dependência 67ª Delegacia de Polícia Civil, tinha apenas quatro letras: medo. Temor de ser arrancado da delegacia e de ser levado para Niterói, para a prisão do DOPS. Alencar e Aranha já estavam lá e as informações eram as de que estavam sendo barbaramente torturados.”

A narrativa acima é uma narrativa plausível dos eventos no dia do golpe militar, pois se baseia tanto nas informações encaminhadas ao 1º. Batalhão de Caçadores por Wilson Madeira, chefe da polícia política em Petrópolis, quanto nos testemunhos de ex-ativistas prestados à Comissão Municipal da Verdade, mais de 50 anos depois.  Deixa entrever o objetivo da ditadura militar em destruir o movimento sindical, rompendo a coesão entre direção e bases.

A história que estamos a escrever é uma narrativa que dialoga, portanto, com a memória dos trabalhadores, dos ativistas e dos militantes, ou seja, com a experiência do vivido que confere o sentimento impossível de ser registrado pela autoridade que se impunha, ademais, como um poder de vida e de morte sobre eles. Uma narrativa histórica que não os vê apenas como vítimas, mas, como veremos em próximos artigos, enquanto ativistas e militantes.

A Comissão é formada por: Eduardo Stotz – sociólogo e historiador, pesquisador da Fiocruz; Glauber de Oliveira Montes – historiador e professor; João Fabre dos Reis – advogado trabalhista; Maria Helena Arrochellas – teóloga e coordenadora do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade; Rafane Valoura Paixão – historiadora e Roberto Schiffler Neto – sociólogo e professor.

Endereço e acesso: Prefeitura Municipal de Petrópolis – Avenida Koeler, 260 – Centro – Petrópolis – RJ – Tel.: (24) 2246-9325. Facebook.com/cmvpetropolis – cmv@petropolis.rj.gov.br

Mais em:

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