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Coluna Literária

[Poetas em Petrópolis] Manuel Bandeira

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886, em Recife. Aos dez anos se mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou o secundário no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II, de 1897 a 1902, bacharelando-se em letras. Em 1904, abandonou os estudos na Escola Politécnica de São Paulo devido à tuberculose e repousou em cidades como Campanha (MG) Teresópolis (RJ), Petrópolis (RJ) e por fim Clavadel, na Suíça, onde ficou de junho de 1913 a outubro de 1914.

Sua conexão com Petrópolis é evidenciada em diversos poemas, inclusive “Itinerário de Pasárgada”, sua obra mais conhecida. “Sou natural do Recife, mas na verdade nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências. Procurei fixá-las no poema ‘Infância’: uma corrida de ciclistas, um bambual debruçado no rio (imagino que era o fundo do Palácio de Cristal), o pátio do antigo Hotel Orleans, hoje Palace Hotel… Devia ter eu então uns três anos. O que há de especial nessas reminiscências (e em outras dos anos seguintes, reminiscências do Rio e de São Paulo, até 1892, quando voltei a Pernambuco,onde fiquei até os dez anos) é que, não obstante serem tão vagas, encerram para mim um conteúdo inesgotável de emoção. A certa altura da vida vim a identificar essa emoção particular com outra — a de natureza artística”,  disse Bandeira logo no início da obra.

De acordo com informações da Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, “a poesia que para ele, até então, era puro diletantismo, passou a ser encarada com mais seriedade por ser uma atividade compatível com o organismo debilitado. E assim, para preencher as horas vazias e livrar-se do ócio involuntário, começou a produzir poemas em que predominam o tom confessional e lamentoso de seu primeiro livro,’A Cinza das Horas’, publicado em 1917, treze anos após a descoberta de sua doença, descoberta essa que se deu em Petrópolis, na Fazenda Santo Antônio, em Itaipava, onde passava as férias. Depois de um passeio a cavalo voltou abatido e cansado e, à noite, despertou com hemoptises. Aliás, Manuel Bandeira  sempre afirmou sua ligação com Petrópolis”.

Confira um do poema: “Corrida de Ciclistas”

Só me recordo de um bambual debruçado no rio.

Três anos?

Foi em Petrópolis.

Procuro mais longe em minhas reminiscências.

Quem me dera me lembrar da teta negra de minh’ama-de-leite…

… Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.

Ainda em Petrópolis…um pátio de hotel…brinquedos pelo chão…

Segundo o artigo “A cidade e os símbolos”, de Maria Tereza Carneira Lemos, doutora em Letras PUC-RJ, “durante sua estadia na Cidade Imperial, Bandeira escreveu uma série de poemas no livro ‘O ritmo dissoluto’, em que as imagens da água que corre nas noites petropolitanas são metáforas melancólicas da vida que passa”:

Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,

Que a vida passa! que a vida passa !

E que a mocidade vai acabar.

No poema “Noturno da Mosela”, o incômodo causado pelo fluxo constante da água confunde-se com o sofrimento interior do poeta diante do impiedoso tempo que passa:

Mas esta queda d’água que não pára! que não pára!

Não é de dentro de mim que ela flui sem piedade?…

Reprodução do blog: http://petropolisliterario.blogspot.com/2012/11/manuel-bandeira-e-petropolis.html

“A fluidez das águas faz do rio um símbolo do tempo e da transitoriedade, mas também da constante renovação da vida que vai e da vida que vem. Para Bandeira, no entanto, o sofrimento da doença intensifica a noção de perda do tempo que se vai como as águas, sem a perspectiva do futuro. A noção da morte, aqui, anula a dinâmica do renascimento”, diz Lemos em seu artigo.

Sua obra foi profundamente marcada pela tuberculose e pela iminência da morte. Seus textos — principalmente nos primeiros livros — são pessimistas e melancólicos, ainda que simples e diretos. Manuel Bandeira faleceu no Rio de Janeiro, aos 82 anos, em 13 de outubro de 1968, vítima de hemorragia gástrica.


Mais em: [Poetas em Petrópolis] Raul de Leoni

[Poetas em Petrópolis] Elizabeth Bishop

[Poetas em Petrópolis] Gabriela Mistral


Fontes: https://www.academia.org.br/academicos/manuel-bandeira/biografia

Itinerário de Pasárgada (Editora Nova Fronteira, 4ª edição)

Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni

“A cidade e os símbolos”

https://revistagalileu.globo.com/Vestibular-e-Enem/noticia/2019/10/manuel-bandeira-conheca-vida-e-obra-do-autor-brasileiro.html

Marianne Wilbert

Jornalista, pós-graduada em mídias digitais.
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