Aconteceu em Petrópolis: Mulheres de nossa História

por Norton Ribeiro

As mulheres sempre tiveram relevância em toda história de Petrópolis, desde o período embrionário do surgimento de nossa cidade, quando esta era uma região de sesmaria e fazendas que davam abrigo e descanso aos viajantes, entre eles, o imperador D. Pedro I. Algumas alcançaram notoriedade ou seu nome marcado no tempo, mas todas são responsáveis pelo avanço de nossa sociedade.

Sabemos que com a descoberta do ouro em Minas Gerais, a variante do caminho novo tornou-se a principal rota entre o Rio de Janeiro e a região aurífera, a qual foi utilizada pelos tropeiros e a família real na época do Império. Assim, as mulheres começaram a se destacar no desenrolar de nossa história.

Podemos iniciar esta trajetória com D. Maria Amélia de Leuchtenberg (1812 – 1873), segunda esposa de D. Pedro I, que se encantou com a fazenda do Padre Correia, onde os filhos do imperador brincavam e os viajantes descansavam, e certamente influenciou a decisão de D. Pedro em propor a compra do local. Da mesma forma, o veraneio na fazenda também era desejado pelo imperador pois, por recomendações médicas, trazia constantemente sua filha, a princesa D. Paula (1823 – 1833), para respirar o ar puro e fresco da serra pretendendo aliviar seus problemas de saúde.

Bem, o imperador não conseguiu comprar a fazenda do Padre e então outra mulher muda o rumo da história.  D. Arcangela Joaquina da Silva, irmã do Padre Correia e herdeira da fazenda, indicou outra propriedade a ser comprada pelo imperador, a Córrego Seco, local que seria herdado por D. Pedro II onde foi erguido o palácio imperial e posteriormente a cidade de Petrópolis.

Mais tarde, ainda no império, as algumas especificidades da colonização da região continuariam nas mãos de mulheres. A Imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon (1822 – 1889), esposa de D. Pedro II e natural de Nápoles, é considerada a primeira italiana que aqui chegou. Logo a seguir, Petrópolis, desde 1845 até meados do século XX, foi privilegiada pela vinda de inúmeros italianos, que ajudaram a constituir nosso ambiente cultural e a própria cidade, envolvidos no mundo do trabalho e das artes.

Pelo final do século XIX, outra mulher continua a construir nossa história. Carolina Kremer, casada com o neto de Henrique Kremer, fundador da cervejaria Bohemia, passou a comandar a fábrica e deu grande impulso à sua produção e crescimento. Quando assumiu, Carolina não entendia muito bem dos negócios já que este não era um ambiente de mulheres, mas conseguiu um mestre cervejeiro suíço depois de colocar um anúncio em um jornal da comunidade alemã. Assim, Alberto Duringer e Carolina Kremer foram fundamentais para a expansão da empresa. Em sua homenagem, a Bohemia estampa a figura de Carolina em seu rótulo até hoje.

Caso a monarquia tivesse continuado, o país teria sua primeira mulher à frente do governo já no final do século XIX, por ocasião da morte de D. Pedro II em 1891. A Princesa Isabel (1846 – 1921) ficou muito conhecida na história por ter libertado os escravos em 13 de maio de 1888. Foi chamada de “A redentora”. Entretanto, seu ato não foi mais do que confirmar a tendência e a pressão abolicionista que o país vivia naquele momento. O movimento pelo fim da escravidão já vinha ocorrendo desde a primeira metade do XIX e, além disso, sabemos que os negros nunca aceitaram tal condição desde que aqui chegaram como cativos. Os verdadeiros responsáveis pela libertação foram os próprios escravos, que lutaram pela liberdade desde o início e de diversas formas. Mas, como a história oficial é escrita de outra forma – e que deve ser criticada – daremos um crédito à nossa princesa e a Petrópolis mesmo, porque as primeiras libertações aqui ocorreram em abril de 1888, no Palácio de Cristal. Documentos deixados pelo abolicionista André Rebouças nos confirmam esse fato, podendo ser lido em sua caderneta que “… no dia 4 de maio de 1888, almoçaram no Palácio Imperial 14 africanos fugidos das Fazendas circunvizinhas de Petrópolis”, sendo todo o esquema de promoção de fugas e alojamento de escravos montado pela própria Princesa Isabel.

Chegando ao século XX, destacamos Djanira da Motta e Silva (1914-1979). Foi uma Famosa pintora, desenhista e ilustradora brasileira que teve parte de sua história ligada a Petrópolis, quando aqui viveu os últimos anos de sua vida. Nascida em Avaré, interior de São Paulo, Djanira é neta de imigrantes austríacos e índios. Aos 23 anos realizou seus primeiros desenhos em Campos do Jordão, quando esteve internada por conta de uma tuberculose. Nos anos 40 mudou-se para o Rio onde pela primeira vez fez uma exposição individual na Associação Brasileira de Imprensa. Morou em Nova Iorque, onde conheceu grandes artistas como Fernand Léger, Joan Miró, Marc Chagall e Pieter Brueghel, por quem foi muito influenciada. Entre 1953 e 1954, viajou a estudo para a União Soviética, voltando ao Rio em seguida. Dos seus trabalhos, destacamos o mural Candomblé, feito para a casa de Jorge Amado, e o painel do nosso Liceu Municipal, que infelizmente vem sofrendo com a degradação.

Nair de Teffé era filha do Barão de Teffé. Nos seus primeiros anos de vida, até os 15 anos, residiu com os pais em Paris, Bruxelas, Nice, e, finalmente em 1905, retornou ao Rio de Janeiro. A menina teve educação e instrução esmerada nos melhores educandários do Exterior e do País. Nair era irrequieta, cantava, escrevia, poetava, caricaturava, aparecia com destaque e atenção nos salões de baile e artísticos, foi atriz de teatro e festejada cantora. Alcançou grande sucesso com suas caricaturas de personalidades sociais e políticas. Ficou nacionalmente famosa sob o codinome “Rian”, seu nome de batismo com as letras invertidas. No dia 8 de dezembro de 1914 casou com o Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca, com bela festa no Palácio Rio Negro, tornando-se primeira dama do País aos 27 anos de idade. Quebrou protocolos e a sisudez dos corredores palacianos, levou música popular e teatro aos saraus do Catete e do Rio Negro. O título “Trem dos Maridos” foi uma referência criada por Nair de Teffé, em suas charges, para caracterizar os coches e nas primeiras décadas do século XX, ao cair da tarde à frente da estação onde as senhoras com seus mais modernos modelos desfilavam à espera de seus maridos que chegavam da Capital.  Em Petrópolis, dedicou-se às letras, ingressando na Associação de Ciências e Letras em 1927, sendo eleita presidente no ano seguinte, 1928. Mais tarde residiu em Niterói, onde faleceu no exato dia em que completava 95 anos de idade: 10 de junho de 1981.

Magdalena Tagliaferro (1893 – 1986) nasceu em Petrópolis, onde começou a dedicar-e ao piano. Aos treze anos, ganhava o Primeiro Prêmio do Conservatório Nacional de Paris. Apresentava regularmente concertos na França e em outros países da Europa, além do Brasil e Estados Unidos. Foi professora em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro. Recebeu vários prêmios e condecorações nacionais e internacionais. Em novembro 1928 gravou o primeiro disco e desenvolveu uma técnica de ensino muito particular e foi criadora do que hoje chamamos de Aula Pública, que visa à educação dos alunos e a formação do público. Seu nome brilha ao lado de artistas como Arthur Rubinstein, Vladimir Horowitz, Claudio Arrau, Antonieta Rudge, Guiomar Novais e Marguerite Long. Exímia intérprete, tornou-se uma referência interpretativa e foi um símbolo da arte de tocar piano, um talento exuberante. Desenvolveu uma brilhante carreira artística, sem nunca se esquecer de sua missão pedagógica. Segundo ela, não há gênio no mundo que resista à falta de estudo.

Jana Moroni (1948 – 1974) nasceu no Ceará e veio ainda criança para Petrópolis junto com sua família. Filha do famoso médico Girão Barroso, passou sua juventude na cidade e começou a estudar Biologia na UFRJ, quando se envolveu com o movimento de resistência à ditadura militar, chegando a entrar para a guerrilha do Araguaia nos anos 70. Foi militante do Partido Comunista do Brasil e, devido a seu envolvimento político, acabou sendo morta em 1974 na guerrilha do Araguaia. Dada como desaparecida política, já que nunca foi encontrada, há muitas versões sobre sua morte. Algumas dizem que foi alvejada pelo exército sem chance de se defender, outra diz que foi capturada e torturada e até há quem diga que teve seu corpo erguido pelos helicópteros dos militares.

Dona Pedentrina Fernandes, nascida em 18/10/1924, foi operária e lutou muito pela melhoria de vida dos trabalhadores petropolitanos. Até hoje se envolve com movimentos sociais da cidade, demonstrando a beleza de uma mulher guerreira. Já aos 11 anos de idade, trabalhava na fábrica Cometa do Meio da Serra, com o pai também envolvido na luta operária. Dona Pedentrina cresceu vendo a perseguição aos trabalhadores procurando ajudá-los de alguma forma:

… a gente quando ia no mato levar comida às vezes a polícia vigiando a gente… ia com a gaiola de passarinho, botava a comida dentro, aí nós íamos levar comida pra eles… [operários envolvidos em greves e reuniões].

Dona Pedentrina, inclusive, foi casada com o filho do gerente da Cometa, porém, esta posição não a afastou da luta operária. Conseguiu impor sua condição de mulher extremamente engajada por mudanças na vida operária, participando de várias greves, perseguições e ameaças. Sabia que estava no meio de mundos distintos e antagônicos e admitia: “… eu cortava uma volta porque ele era filho do gerente”.

Algumas vezes muito bravas, mas sempre carinhosas. Outras vezes indecisas, mas nunca inseguras. Várias vezes insistentes, mas nunca sem razão. Assim como essas mulheres famosas, nossas mulheres têm seu papel central no desenrolar de nossas vidas hoje e sempre. Sejam as mães, avós, tias, irmãs, esposas, amigas, o mundo deve a elas a condição de, a cada dia, se reinventar e tornar-se melhor. Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher.

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