Aconteceu em Petrópolis: A tradição petropolitana nos movimentos sociais

por Norton Ribeiro

Sim, meus amigos, Petrópolis tem tradição em movimentos sociais. O que temos visto em nosso país nos últimos dias é o reflexo de séculos de espoliação e traições sobre o povo. Não sabemos que rumo as coisas vão tomar, se as lideranças terão poder de negociação ou se as propostas serão aceitas. No entanto, as reivindicações estão sendo ouvidas, isto é certo. Estão na ordem do dia; é uma crise de estrutura do capitalismo; é uma crise política também. O modelo vigente vem cooptando os discursos de mudanças há décadas e o poder foi capaz de aniquilar a paixão pela transformação real. Grupos de interesse se formaram e “assaltaram” as necessidades públicas, mudando o conceito latino de Res Pública (coisa pública), para Res Privata. Não é um conflito de classes, mas um conflito de proporções mais amplas e complexas. A catarse se instalou na população da qual fazem parte o trabalhador, a classe média, o miserável, o pequeno empresário, os estudantes, ou seja, entre nós. Talvez a alta burguesia tenha interesse em ver o circo pegar fogo mesmo, para que estenda sua mão com migalhas a fim de levar a grande maioria ao paraíso por alguns momentos e conservar as estruturas que lhe mantém de pé. O sistema atual é assim mesmo; ele passa por crises temporárias, mas consegue encontrar brechas para se alavancar novamente até que um novo ciclo se complete e surja um novo desafio. Somente uma transformação no âmago pode dar conta de um novo paradigma, e não sei se isto vai acontecer. Entretanto, a verdade é que o doente está apresentando convulsões e sabe que ainda pode viver.

Em nossa cidade, o início dos movimentos sociais com maiores reflexos podem ser localizados já em fins do século XIX e início do século XX, quando dezenas de fábricas têxteis e as oficinas da Leopoldina Railway empregavam milhares de trabalhadores. Naquela época a exploração era intensa sobre a classe operária e os trabalhadores não tiveram alternativa a não ser se organizar e lutar. Formaram associações beneficentes que deram origem aos sindicatos; havia greves em várias ocasiões e com diversos grupos de trabalhadores, como a greve de menores na década de 1910 ou a greve de padeiros no mesmo período. Os trabalhadores da indústria têxtil se organizaram com mais força por conta do enorme contingente que existia na cidade desse grupo de operários. Na década de 1920 os ânimos foram se acirrando já que a classe operária no Rio, São Paulo e Petrópolis percebeu que era possível manter a luta por melhorias, devido à quase completa falta de legislação trabalhista e ao modelo agrário-exportador que já não dava mais conta da insatisfação das classes urbanas. Em Petrópolis, há depoimentos nos jornais da época confirmando que a polícia avançava sobre as manifestações montada sobre cavalos.

Com o governo Vargas, nos anos 30 e 40, a classe trabalhadora não se intimidou e manteve uma posição de lutas, embora Getúlio tentasse cooptá-la com a legislação trabalhista e oficialização dos sindicatos. São famosos os conflitos entre Aliancistas (ANL) e Integralistas no centro da cidade, quando os dois grupos chegaram às vias de fato num confronto na Rua João Pessoa, provocando a morte de um operário da Fábrica Dona Isabel, Leonardo Candú. Getúlio Vargas era freqüentador assíduo da cidade e do Palácio Rio Negro e por várias vezes era recebido por passeatas de dez mil pessoas que ia ao seu encontro na Av. Koeler. Mais do que vê-lo como “pai dos pobres”, os trabalhadores pressionavam pela sua atenção e reivindicações.

Na década de 1940, a constante crise de abastecimento de gêneros de primeira necessidade levou os operários protestarem pela subsistência onde os jornais estampavam manchetes classificando a paralisação de “Greve Monstro”. Os milhares de operários também gritavam contra o racionamento de energia que vinha prejudicando o trabalho, fazendo com que os vencimentos diminuíssem. Em meio a isto, estava também a crise da habitação. O movimento operário, contudo, prosseguia o ritmo de suas reivindicações, estando atento ao desenrolar de assuntos de seu interesse direto no âmbito do Legislativo, como o projeto de lei que tratava da aposentadoria. Com Vargas novamente no poder a partir de 1951 e o novo Congresso eleito, os trabalhadores viam a oportunidade de chegar a outras conquistas através daquele que ficara conhecido pela implantação das leis do trabalho. Desta vez, passou a fazer parte da pauta de reivindicações a luta pela aposentadoria dos industriários e demais trabalhadores com 35 anos de serviço. No entanto, o movimento operário petropolitano trouxe à tona a questão do benefício por tempo de serviço, pressionando o presidente pela aprovação do projeto de lei nº 918 que tratava da aposentadoria dos industriários. Dessa forma, tem início uma campanha dos trabalhadores da cidade para a conquista do benefício, algo que continuaria por toda a década. Segundo o jornal O Estado do Rio, periódico que circulava na cidade e dava grande visibilidade ao movimento na época, o movimento Pró-Aposentadoria teria se iniciado em Petrópolis alcançando demais confederações e sindicatos em nível nacional.

Em 1954, ocorreu em Petrópolis uma grande paralisação das fábricas seguida de passeata contra o aumento da passagem de ônibus (alguma coincidência?). Os vereadores autorizaram o reajuste e o movimento tomou as ruas com faixas e caixões simbolizando o enterro do legislativo que traíra a classe trabalhadora. Numa das faixas pode-se ler: “RENDEMOS HOMENAGENS AOS VEREADORES QUE VOTARAM CONTRA O NÃO AUMENTO DAS PASSAGENS”. O movimento conseguiu que o prefeito Cordolino José Ambrósio vetasse o aumento.

Se o leitor me permitir, daremos um salto de algumas décadas para que eu possa deixar meu depoimento sobre alguns movimentos dos quais pude participar em Petrópolis. Em 1989, sabemos que a campanha eleitoral fervilhava em todo país depois de três décadas sem voto direto para presidente. Houve uma ocasião em que os candidatos Fernando Collor, representante do grande capital e neoliberalismo, e Roberto Freire, representante da esquerda mais tradicional e histórica com o PCB, vieram à cidade no mesmo dia. Nós, estudantes do colégio D. Pedro II, juntamente com a população, fomos ao comício de Collor em frente ao Obelisco. Entretanto, o que se viu não foi aquela recepção acalorada que nosso jovem candidato estava acostumado a receber em muitas cidades do país, com seu discurso em prol dos “descamisados”. Collor foi vaiado quase o tempo todo, com direito a levar “ovada” e tudo. Olhei pro lado para uma senhora que o aplaudia, enquanto gritávamos palavras de ordem sufocando suas palavras e seu inflamado de falar. Depois de um tempo, a multidão que gritava começou a se deslocar em direção à praça Dom Pedro, sem saber muito bem o porque. Lá chegando, pudemos ver Roberto Freire rodeado por muitas pessoas que o seguiu até o Palácio Amarelo, esvaziando o comício de Collor. Freire subiu nas escadas e discursou no gogó mesmo, com a multidão em silêncio.

Em 1992 voltamos às ruas para o Impeachment de Collor. O movimento dos caras-pintadas tomou o Brasil, e críticas à parte, os estudantes e a população petropolitana mais uma vez se envolveu. Lembro-me de sair do colégio por volta das 18hs e entrar na passeata que circulou o centro da cidade e terminou na praça no início da rua Paulo Barbosa, onde cantamos o hino nacional.

Mais recentemente, em 2010, tivemos a greve dos professores da rede pública que parou a cidade em passeatas e assembléias com grande apoio popular. O movimento obteve conquistas importantes para a classe e teve repercussão nacional. A luta pressionou o governo municipal e não se deixou levar pela idéia de concessão de direitos, própria de governos populistas, demonstrando que o avanço partiu de dentro dos anseios do professores, sendo uma vitória da própria classe.

Petrópolis manteve, assim, sua tradição nos maiores movimentos do país, apesar de sua história oficial ainda não ter dado o devido espaço para ela em suas páginas.

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